Oração Em Escola
Uma “guerra santa” foi travada entre os
pais das 180 crianças de 4 e 5 anos que estudam no Jardim de Infância da
404 Norte, na região central de Brasília. Uma oração feita pelos alunos
diariamente, antes do início das aulas, é o principal motivo da
discórdia. De um lado está um grupo de pais que pede a exclusão de
referências religiosas das atividades escolares. Do outro, os que apoiam
o ritual diário e consideram que a direção da escola está sendo
perseguida.
A discussão teve início quando uma
denúncia sobre o assunto foi encaminhada à Ouvidoria da Secretaria de
Educação do Distrito Federal. Todos os dias antes das aulas os alunos se
reúnem no pátio da escola para o momento chamado de acolhida. Nessa
hora, são estimulados a fazer uma “oração espontânea”, como define a
diretora Rosimara Albuquerque. A cada dia, crianças de uma turma ficam
responsáveis por fazer os agradecimentos a Deus ou ao “Papai do Céu”.
“Pode agradecer pelo parquinho, pelos colegas. Mas houve um
questionamento por parte dos pais para que fosse um momento de acolhida
um pouco mais amplo já que algumas famílias não comungam dessa religião,
que seria basicamente cristã”, conta Rosimara, que está à frente da
escola há seis anos.
Para a radialista Eliane Carvalho,
integrante da Associação de Pais e Mestres do colégio, a escola está
ultrapassando os limites permitidos pela legislação. Ela e outros pais
que protestam contra essas atividades se apoiam no princípio
constitucional da laicidade para pedir que práticas de cunho religioso
fiquem de fora do ambiente escolar. Além do momento da acolhida, ela
conta que notou outros sinais de violação, a partir de informações que o
filho de 4 anos levava para casa.
“Não posso dizer que existem dentro da
sala de aula práticas religiosas. Mas meu filho não aprendeu em casa a
orar em nome de Jesus. Um dia ele me disse que o telefone para falar com
Jesus era dobrar o joelho no chão”, relata Eliane.
Em resposta à denúncia, um grupo maior
de pais organizou um abaixo-assinado a favor da escola e da oração no
início das aulas. Alguns alegam que a diretora está sendo perseguida por
ser católica e atuante em grupos religiosos. “A forma como eles
[professores e direção] estão atuando não é nada abusiva ou direcionada a
uma crença específica. Eles colocam a palavra de Deus, como entidade
superior, e agradecem à família. São só coisas boas, frutos bons. Quem
está incomodado é uma minoria”, defende Thiago Meirelles, que é católico
e pai de um aluno.
Para Carolina Castro, mãe de outro
estudante, a intenção da escola é positiva e busca a socialização. “Não
acho que eles estejam tratando de religião em si, mas passando uma noção
de agradecimento do que é precioso na vida. Não acho que isso seja
ensino religioso”, diz.
Eliane Carvalho lamenta que a discussão
tenha ficado polarizada. “Não é uma discussão pessoal, mas de currículo.
O grupo que fez o abaixo-assinado passou a nos ver como perseguidores
de cristãos, hoje somos vistos como pessoas absurdas que não querem a
palavra de Deus na escola. Todos têm o direito de fazer suas orações,
mas eu questiono o fato de a escola aceitar uma prática que, para mim,
se configura em arrebanhar fiéis”, diz.
O momento da acolhida é feito há 40
anos, desde que a escola foi fundada, e é comum também em outros
colégios da rede. Na última semana a reza foi substituída por cantigas
de roda e outras atividades. “Aí, sim, parecia uma escola, antes parecia
uma igreja. Como pai que tem a obrigação de dar uma orientação
religiosa à filha, não posso permitir que haja divergência. O mais
triste é que, apesar de essas pessoas dizerem que estão pregando o amor e
o respeito, elas não têm respeito nenhum pela minha liberdade de que
não haja essa interferência [religiosa]”, diz Mafá Nogueira, pai de uma
aluna.
Para resolver o problema, a escola vai
convocar reuniões com pais, professores, funcionários e representantes
da Secretaria de Educação. “Vamos discutir como a gente pode abordar a
pluralidade e a diversidade sem agredir ninguém e que todos possam sair
satisfeitos. Mas essa polêmica é salutar porque, na medida em que a
gente ouve questionamentos de pais que pensam diferente, isso é saudável
para o crescimento. Podemos adotar uma postura diferente, estruturada
no que a comunidade pensa”, avalia a diretora Rosimara, que usava no
pescoço um cordão com um crucifixo enquanto conversava com a reportagem
da Agência Brasil.
A Secretaria de Educação do Distrito
Federal informou que desconhece problemas semelhantes em outras escolas
da rede e reiterou que orienta as unidades a seguir a Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional (LDB), que veda qualquer prática
proselitista no ambiente escolar.
Fonte: Revista Época
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